Vale a pena, rapidamente, escrever um pouco sobre a relação que essa palavra, que tanto nos entusiasmou nestas ultimas duas décadas, tem com sustentabilidade.

Um mundo globalizado significa um mundo onde as distâncias são encurtadas principalmente pela facilidade de comunicação e de locomoção entre todas as partes. Com acesso cada vez mais popular e rápido a esses meios de troca, Informações, pessoas e produtos atravessam o globo terrestre em poucas horas. Um filme ou campanha publicitária, por exemplo, pode surgir em um país e rapidamente se espalhar, mesmo espontaneamente, em outros continentes. Essas trocas, tão rápidas e constantes geram também um comportamento das pessoas em relação a valores, idéias e desejos semelhantes. Quantas hoje são as empresas globais, marcas que aparecem com a mesma propaganda em diversos continentes? Empresas que lançam produtos no mesmo dia, em lojas de todo o mundo, com filas de consumidores desesperados pela aquisição desse lançamento?

Fila de consumidores para compra de novo SmartPhone – China

Ficamos uma década falando das maravilhas que a globalização nos permite, mas nos esquecemos de que o uso que fazemos dessa globalização pode ser incompatível, para não dizer “proporcionalmente inverso” aos esforços em sustentabilidade.

Hoje, o planeta abriga em torno de sete bilhões de habitantes. Cerca de 25% dessa população vive com mais de 70% dos recursos naturais disponíveis. Um cidadão norte americano, por exemplo, tem um nível de consumo de recursos mais de 20x ao de cidadãos de países em desenvolvimento.

Em um mundo globalizado, onde o acesso aos meios globais de comunicação é cada vez mais fácil e rápido, também é cada vez maior a quantidade de seres humanos impactados por esta comunicação. Sendo assim, cada vez mais cidadãos, assistem as mesmas propagandas e conhecem as mesmas marcas e produtos. Logo, desenvolvem os mesmos desejos e valores em relação ao consumo.

Mas um mundo justo, com cada vez menos desigualdades sociais, deve suportar um nível de acesso a bens e serviços semelhantes entre todos os habitantes, correto? Pois é… se todos os sete bilhões de habitantes tivessem o mesmo nível de consumo de um cidadão comum norte americano, precisaríamos de cerca de seis planetas Terra para poder suprir toda a população.

Mas nós, que tanto falamos em igualdade social e em acabar com a pobreza, o que faremos com os cerca de 4 bilhões de habitantes da terra que entrarão na classe de consumidores ávidos a adquirir os produtos da propaganda? E quanto de recursos naturais e de poluição vamos gerar para conseguir entregar os produtos para todas estas pessoas?

Pois é:

“Pobre não é aquele que tem pouco, mas aquele que precisa de mais, mais e mais”…

O filme abaixo é um discurso do Presidente do Uruguay, José Pepe Mujica durante a Rio +20, em 2012. O que ele diz tem tudo a ver com esse Blog. Talvez sua colocação mais importante seja de que “não governamos o mercado, mas somos governados pelo  mercado”. A Globalização, neste sentido, significa olhar para o mundo inteiro com uma lente capitalista, padronizando os desejos de consumo e gerando demandas de bilhões de habitantes pelos mesmos produtos. Uma gigante oportunidade de rápidos ganhos financeiros, mas uma catástrofe para a sustentabilidade e preservação do recursos naturais da Terra. Um mercado que busca crescimento econômico infinito, baseado no consumo de bens e serviços pelos quais nos tornamos reféns.